O efeito COVID nas futuras escolhas de habitação em Itália

Gtres
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1 outubro 2020, Redação

A emergência sanitária da COVID-19, e a sua consequência mais extrema, o confinamento, além de causar uma crise económica, confrontou governos, cidadãos e arquitetos com a realidade de que as taxas de crescimento e a densidade urbana das cidades em Itália, e não só, já não são sustentáveis. Para saber quais podem ser as novas tendências habitacionais nas casas pós-COVID-19, o idealista/news entrevistou Francesco Roesler, Arquiteto Paisagista Sénior & Masterplanner da firma internacional Dar Al-Handasah.

Foi o próprio conceito de casa que, de certa forma, se transformou num cenário quase híbrido e, certamente, multifuncional. "Durante o confinamento, as nossas casas foram adaptadas para servirem de escritório, ginásio, restaurante e, em alguns casos, até de barbearia ", explica Francesco Roesler, que também salienta que a verdadeira diferença durante os momentos mais difíceis do confinamento forçado foi conseguida através dos metros quadrados disponíveis: "obviamente, aqueles que tinham divisões grandes para se adaptarem consoante as necessidades eram mais privilegiados".

O confinamento não foi apenas uma realidade em Itália, mas em muitos países diferentes da Europa e do mundo, e proporcionou uma linha divisória clara que estabeleceu um antes e um depois no modo de viver em casa. "Isto levou muitas empresas de arquitectura a repensar o mobiliário e o design da casa para satisfazer o que poderiam ser as necessidades e tendências do futuro", sublinha o arquiteto do estúdio internacional Dar Al-Handasah.

Para Roesler, a pandemia confrontou todos com algumas das questões fundamentais e críticas da futura forma de escolher uma casa e o subsequente modo de vida. E os componentes que acredita que desempenharão um papel central na configuração da casa pós-coronavírus são: espaços comuns, flexibilidade e tecnologia, tamanho, contexto, espaços exteriores, mobiliário e materiais. O desafio é compreender como estes componentes alterarão a forma como vivemos e quão importantes serão nas futuras escolhas de casa. Vejamos os principais componentes a serem considerados:

Espaços comuns

"Este é geralmente um tema central e uma prerrogativa de casas arrendadas partilhadas por vários inquilinos" - especifica Francesco Roesler - "mas tornaram-se também uma tendência na Habitação Social, um modelo muito popular no norte da Europa, onde um edifício de apartamentos partilha espaços comuns tais como lavandarias, salas de cinema, áreas de jogos ou de estudo e, em alguns casos, piscina e ginásio, bem como áreas verdes para jogos ao ar livre".

E são precisamente as características dos edifícios dedicados à habitação social que desenvolvem o que poderia ser o novo paradigma dos condomínios: "O trabalho à distância e a possibilidade de passar mais tempo em casa irá difundir ainda mais este modelo, concebido como auto-suficiente e economicamente sustentável".

Flexibilidade e tecnologia

Como mencionámos anteriormente, é fácil imaginar uma hibridação dos ambientes de vida. E é precisamente sobre este aspecto que o arquiteto do estúdio internacional Dar Al-Handasah se concentra: "O trabalho e um estilo de vida mais flexível significam ambientes mais flexíveis; veremos uma espécie de hibridação entre casa, escritório e ginásio onde os espaços se tornarão cada vez mais multifuncionais e concebidos para acomodar uma pluralidade de atividades".

E como é que esta nova tendência de estilo de vida se traduz em termos práticos para o lar? "Paredes deslizantes para dividir temporariamente as divisões e criar privacidade, mobiliário que atua como separador ou que é retrátil mas também micro-soluções, tais como tomadas elétricas ou USB integradas no mobiliário e cada vez mais tecnologia portátil (a começar pelos smartphones) na gestão de aparelhos domésticos, iluminação e segurança".

Tamanho

Quanto aos metros quadrados disponíveis, muitos durante o encerramento redescobriram a importância dos espaços disponíveis. Contudo, para Roesler, a procura de áreas maiores poderia ser uma tendência passageira: "A procura de áreas maiores será certamente uma resposta, pelo menos a curto prazo, ao efeito de confinamento, mas é difícil acreditar que isto se tornará uma tendência futura. Casas maiores significam mais impostos, mais manutenção e contas mais caras".

O conceito de tamanho não marcará a diferença, mas sim a função dos espaços: "Penso que, em vez disso, vamos avançar para uma avaliação mais cuidadosa do tamanho das divisões individuais de acordo com as necessidades presentes e futuras", explica o arquitecto. "Isto significa que haverá uma pluralidade de pedidos, dependendo de quem dá mais importância a ter um único grande espaço aberto a ser dividido de forma mais flexível ou de quem prefere ter mais divisões separadas de forma clara".  

Contexto

O que existe à volta da casa passa também a ser cada vez mais importante, especialmente em relação ao aumento do trabalho a partir de casa. "O peso que o contexto geográfico terá na escolha da casa mudará muito. Aqueles que poderão trabalhar a partir de casa, por exemplo, deixarão de dar prioridade à proximidade ao escritório ou ao metro, mas sim a um parque ou centro desportivo".

Uma verdadeira revolução, a destacada por Francesco Roesler, é também uma reapropriação do tempo livre: "A qualidade do ar e da iluminação natural, a proximidade de contextos naturais ou de ciclovias extra-urbanas tornar-se-á cada vez mais atrativa para jovens profissionais que já não precisam de viver em centros urbanos congestionados".

Espaços ao ar livre

O período de isolamento, para além da necessidade de espaço disponível na casa, destacou sobretudo a importância de desfrutar de momentos ao ar livre: "Quer seja uma varanda, um jardim ou um terraço, a ventilação exterior tornou-se para muitos uma obrigação na procura de uma casa. Tornámo-nos conscientes do valor do exterior como uma extensão da casa e, ao mesmo tempo, aumentámos a nossa consciência do mobiliário exterior e, sobretudo, das plantas".

Contudo, o próprio arquiteto de Dar Al-Handasah salienta que "casas com jardins ou penthouses estão frequentemente associadas a segmentos de mercado médios-altos e o aumento da procura ajudará a aumentar o custo deste tipo de edifícios, incitando os compradores com menos vontade de se deslocarem a reconsiderar condomínios com grandes espaços comuns ao ar livre e bem equipados ou a possibilidade de viver fora da cidade, em locais mais rurais, a preços mais baixos".

Por esta razão, aqueles que vendem terão de prestar particular atenção a aspectos que anteriormente eram considerados quase marginais: "A escolha entre os dois dependerá de quanto o comprador se pode libertar da vida urbana. É portanto desejável investir na qualidade dos espaços abertos porque os compradores passarão a ser cada vez mais exigentes, investindo em soluções de baixa manutenção e relacionadas com o contexto, escolhendo os materiais e as plantas certas".

Materiais

O legado da pandemia que estamos a viver também deixará o seu rasto no que respeita à escolha de materiais a serem utilizados em casa no futuro, que, segundo Roesler, terá de ser "cada vez mais caracterizado pela facilidade de manutenção, durabilidade mas também facilidade de higienização".

É por isso fácil imaginar que algumas tendências ou clássicos do passado e do presente serão postos de lado: "Veremos menos materiais porosos que podem absorver água e gerar bolor, menos superfícies absorventes como tapetes ou tecidos, e mais metais, madeira tratada, cerâmica ou compostos como o grés. A tecnologia desempenhará então o seu papel na criação de novos materiais de alto desempenho a preços acessíveis", conclui Francesco Roesler.

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